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domingo, 19 de fevereiro de 2012

O Teorema Fundamental do Cálculo Segundo Newton

Poucos anos após da invenção do Cálculo em [;1665-1666;], circulou entre os amigos de Isaac Newton manuscrito de sua autoria intitulado De Analysi per Aequationes Numero Terminorum Infinitas, sendo publicada apenas em [;1711;]. Este manuscrito, além da relação entre áreas e tangentes, ele continha os fundamentos do seu método de séries infinitas, que eram manipuladas por multiplicações, divisões e extrações de raízes.

Neste post, apresentaremos a versão de Isaac Newton do teorema que é a essência do Cálculo Diferencial e Integral. A figura ao lado é uma montagem de uma página de seu livro escrito supostamente em [;1669;] em que o teorema é provado.

Proposição 1: (Teorema Fundamental do Cálculo) Seja [;AD\delta;] uma curva qualquer e suponhamos que a área [;z;] da figura curvilínea [;ABD;] é gerado pelo movimento contínuo e uniforme do segmento [;BD = y;] da esquerda para direita. Se

[;z = \frac{na}{m+n}x^{(m+n)/n};]

então a fluxão da área [;z;] (taxa de variação instântanea) em relação a [;x\;] é igual a ordenada [;y;], isto é

[;\dot{z} = y = ax^{m/n};]

Demonstração: Baseado na figura acima, destacamos na imagem abaixo os principais elementos usados por Newton em sua prova.

Sejam
[; \frac{na}{m+n} = c \quad \text{e} \quad m + n = p \qquad (1);]

Para obter este resultado, Newton observou a evolução da área em um tempo muito pequeno. Assim, ele considerou [;o;] como sendo o momento ou acréscimo infinitesimal da abcissa [;x\;]. Então a nova abcissa será [;A\beta = x + o;] e a área aumentada será [;A\delta \beta = z + ov;] (ou o que é equivalente a [;z + oy;]). Newton afirma que existe um ponto [;K;] tal que a área do retângulo [;B\beta HK;] é igual a área do retângulo curvilíneo [;B\beta \delta D;]. Note que

[;z = \frac{n}{m+n}ax^{(m+n)/n} = cx^{p/n} \quad \Rightarrow \quad z^n = c^nx^p;]
Assim,
[;(z + oy)^n = c^n(x + o)^p;]

Usando o binômio para expandir a expressão acima, Newton obteve

[;z^n + noyz^{n-1}+\ldots = c^n(x^p + pox^{p-1}+\ldots) \quad \Rightarrow;]

[;z^n + noyz^{n-1}+\ldots = c^nx^p + c^npox^{p-1}+\ldots \qquad (2);]

Dividindo a expressão [;(2);] por [;o;] e abandonando os termos que ainda contém [;o;], temos

[;ny\frac{z^n}{z} = c^npx^{p-1} \quad \Rightarrow \quad ny\frac{c^nx^p}{cx^{p/n}} = c^npx^{p-1} \quad \Rightarrow;]

[;nyx^{p - p/n} = cpx^{p-1} \quad \Rightarrow \quad nyx^{-p/n} = cpx^{-1} \quad \Rightarrow;]

Isolando [;y;] e usando as expressões dadas em [;(1);], segue que

[;y = \frac{cp}{n}x^{p/n - 1} = \frac{na}{m+n}\cdot \frac{m+n}{n}x^{(p - n)/n} \quad \Rightarrow \quad y = ax^{m/n};]

Parece ser essa a primeira na história da matemática que uma área foi achada pelo inverso do que chamamos diferenciação, embora a possibilidade de usar tal processo evidentemente fosse conhecida por Barrow e Gregory, e talvez também por Torricelli e Fermat.

Reciprocamente, se a curva é [;y = ax^{m/n};], então a área será

[;z = \frac{n}{m+n}ax^{(m+n)/n};]

Em outras palavras, para Newton, a fluente de uma ordenada variável é a área gerada pela ordenada em seu movimento.

Exemplo 1: Ache a ordenada de uma curva sabendo que sua área ou fluente é dada por [;z = x^3;].

Resolução: Usando a mesma figura acima, tomamos [;x = AB;], [;x + o = A\beta;] e [;z = ADB;]. Assim,

[;(x + o)^3 = x^3 + 3ox^2 + 3o^2x + o^3 = z + ov;]
Consequentemente,

[;3ox^2 + 3o^2x + o^3 = ov \quad \Rightarrow \quad 3x^2 + 3ox + o^2 = v;]

Fazendo [;o = 0;], obtemos [;3x^2 = v = y;].

Newton determina a área sob a curva [;y=y(x);] invertendo as operações de derivação. Deste modo, ele não adiciona mais superfícies infinitesimais como nos procedimentos anteriores, mas coloca a derivada como ponto central do seu desenvolvimento. Assim, para fazer a quadratura de uma área de ordenadas dadas por [;y = y(x);], basta achar a primitiva [;Y;] de [;y;], isto é, achar [;Y;] tal que a fluxão de [;Y;] seja [;y;]. Em notação moderna: achar [;Y;] tal que [;dY/dx = y;].

Exemplo 2: Ache a primitiva de [;y = 1/(x + 1);] seguindo os passos de Newton.

Resolução: Para achar a primitiva de [;y = 1/(x + 1);] ele usava séries infinitas escrevendo
[;Y = ax^m + bx^{m+1}+\ldots;]
de modo que
[;\dot{Y} = amx^{m-1} + b(m+1)x^m + \ldots;]

Usando o seu binômio ou por divisão direta, ele obtinha

[;y(x) = \frac{1}{x+1} = 1 - x + x^2 - x^3 + \ldots;]

Sendo [;\dot{Y} = y(x);], comparando os termos de cada série, obtemos [;a = 1;], [;b = -1/2;], etc.

Segundo Boyer, Newton tornou-se o efetivo inventor do cálculo porque foi capaz de explorar a relação inversa entre inclinação e área através de sua nova análise infinita. Por isso, é que mais tarde ele viu com maus olhos toda tentativa de separar seu cálculo de sua análise por séries infinitas.

Referências Bibliográficas:
- Boyer, Carl B. História da Matemática. Trad. Elza F. Gomide. Ed. Edgar Blucher Ltda, São Paulo, 1974.

- Lilian J. Galarda, et. ali. A Evolução do Cálculo Através da História. Ed. da Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 1999.
- Sloman H. The Claim of Leibniz to the Invention of the Differential Calculus. McMillan and Co. London, 1860.
- http://euler.mat.ufrgs.br/~portosil/newton.html


Gostará de ler também:
- O Binômio Segundo Newton;
- O Cálculo de Newton (Parte 1);
- O Cálculo de Newton (Parte 2);
- Grandes Matemáticos (Isaac Newton);
- Matemática Elementar por Isaac Newton;
- Sobre a Lei da Gravitação Universal.

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