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domingo, 10 de junho de 2012

A TDL e Aplicações nas Equações de Recorrência

As equações de recorrência aparecem em várias situações em que as variáveis presentes são medidas por grandezas discretas. Podemos citar o cálculo do montante de capital a juros constantes após [;n;] meses, o cálculo de uma expressão fechada envolvendo o número de movimentos mínimos para resolver a torre de Hanói, o problema da reprodução dos coelhos de Fibonacci e os números de Pell-Lucas.

Tais equações são resolvidas por vários métodos, tais como, a anti-derivada finita ou cálculo natural, a técnica de variação das constantes, substituições adequadas, etc.
Uma técnica eficaz e pouco explorada para resolver as equações de recorrência lineares são as transformadas discretas de Laplace (TDL). A vantagem deste método é a mesma das transformadas de Laplace sobre os métodos tradicionais, isto é, as equações são transformadas em equações algébricas e as condições iniciais do problema são de fato substituição na etapa inicial de resolução. Como a TDL é um assunto recente, vejamos alguns conceitos e proposições que serão úteis em nossa tarefa de resolver as equações de recorrência apresentadas neste post.  

Definição 1: A transformada discreta direta de Laplace (TDDL) denotada por [;\ell_d;] da sequência [;x_n;] é definida por 

[;\ell_d\{x_n\} = \sum_{n=0}^{\infty}e^{-sn}x_n = X(s);]
desde que essa série seja convergente.

Nem todas as sequências admitem a transformada discreta de Laplace, podemos citar, por exemplo [;x_n = n!;]. Deste modo, devemos impor condições sobre a sequência [;(x_n);] de modo que a série acima seja convergente. As sequências [;(x_n);] para os quais a transformada discreta de Laplace existe são chamadas de sequências admissíveis.

É fácil ver que a TDDL é linear e que os ítens da proposição abaixo são facilmente demonstrados usando a definição acima. Além disso, tais provas serão omitidas para não compremeter a dinâmica e os objetivos deste post.
Proposição 1: Se [;\ell_d;] denota a transformada discreta de Laplace, então
[;i);] [;\ell_d\{1\} = \frac{e^s}{e^s - 1}, \qquad s \succ 0;] 
[;ii);] [;\ell_d\{n\} = \frac{e^s}{(e^s - 1)^2}, \quad s \succ 0;]
[;iii);] [;\ell_d\{r^n\} = \frac{e^s}{(e^s - r)}, \quad e^s \succ r;]
[;iv);] [;\ell_d\{x_{n+1}\} = e^sX(s) - x_0;]
[;v);] [;\ell_d\{x_{n+2}\} = e^{2s}X(s) - e^{2s}x_0 - e^{s}x_1;]
 Proposição 2: Seja [;{n \choose p};]  o coeficiente binomial. Então
[;\ell_d\bigl\{{n \choose p}\bigr\} = \frac{e^s}{(e^s - 1)^{p+1}}, \quad p \in \mathbb{N};]
Demonstração: Seja [;f(x) = 1/(1 - x);] definida para [;x \in (-1,1);]. Então para todo [;n \in \mathbb{N};], 
 [;f^{(p)}(x) = \frac{p!}{(1 - x)^{p+1}} \qquad (1);]
Para [;p = 0;] é claro que [;f^{(0)}(x) = 1/(1 - x);]. Suponhamos que a expressão [;(1);] seja válida e provaremos que ela também é válida para [;p + 1;]. De fato,

[;f^{(p+1)}(x) = [f^{(p)}(x)]^{\prime} = p![(1 - x)^{-p-1}]^{\prime};]
[;= -(p+1)p!(1 - x)^{-p - 2}(-1) = \frac{(p+1)!}{(1 - x)^{p+2}};]
Por outro lado, mostraremos que
[;f^{(p)}(x) = \sum_{n = p}^{\infty}p!{n \choose p}x^{n - p} \qquad (2);]
Usaremos indução finita sobre [;p;] para provar este resultado. Para [;p = 0;], temos:
[;f^{(0)}(x) = \sum_{n = 0}^{\infty}0!{n \choose 0}x^{n - 0} = \sum_{n = 0}^{\infty}x^n = f(x);]
Suponhamos que a expressão [;(2);] seja válida e provaremos sua validade para [;p+1;]. De fato,
[;f^{(p + 1)}(x) = [f^{(p)}(x)]^{\prime} = \biggl[\sum_{n = p}^{\infty}p!{n \choose p}x^{n - p}\biggr]^{\prime};] 
 [;= \sum_{n = p + 1}^{\infty}p!(n - p){n \choose p}x^{n-1-p};] 
[;= \sum_{n = p+1}^{\infty}(p+1)!{n \choose p+1}x^{n - (p+1)};]
Na última linha, usamos o fato que
[;p!(n - p){n \choose p} = \frac{p!(n - p)n!}{p!(n - p)!} = \frac{n!}{(n - 1 - p)!} = (p + 1)!{n \choose p+1};]
Das expressões [;(1);] e [;(2);], segue que 

[;\sum_{n = p}^{\infty}{n \choose p}x^{n} = \frac{x^p}{(1 - x)^{p+1}};]
para [;|x| \prec 1;]. Fazendo [;x = e^{-s};] nesta expressão, temos

 [;\sum_{n = p}^{\infty}e^{-sn}{n \choose p} = \frac{(e^{-s})^{p}}{(1 - e^{-s})^{p + 1}} = \frac{e^s}{(e^s - 1)^{p+1}} \qquad (3);]
Por outro lado, 
[;\ell_d\biggl\{{n \choose p}\biggr\} = \sum_{n = 0}^{\infty}e^{-sn}{n \choose p} = \sum_{n = p}^{\infty}e^{-sn}{n \choose p} \qquad (4);]

De [;(3);] e [;(4);] segue o resultado.

Definição 2: Se [;X(s);] é a transformada discreta de Laplace de [;(x_n);], a transformada discreta inversa de Laplace (TDIL) é definida por:
[;\ell_{d}^{-1}\{X(s)\} = x(n) = x_n;]
Note que se [;\mathcal{N}(n) \equiv 0;], então
[;\ell_d\{x_n + \mathcal{N}_n\} = \ell_d\{x_n\} = X(s) \quad \Rightarrow \ell_{d}^{-1}\{X(s)\} = x_n + \mathcal{N}_n;]

Deste modo, iremos excluir as sequências nulas para garantir a unicidade da TDIL. Segue da Prop. 1 que:
[;i);] [;\ell_{d}^{-1}\bigl\{\frac{e^s}{e^s - 1}\bigr\} = 1;]
[;ii);] [;\ell_{d}^{-1}\bigl\{\frac{e^s}{e^s - r}\bigr\} = r^n;] 
[;iii);] [;\ell_{d}^{-1}\biggl\{\frac{e^s}{(e^s - 1)^{p+1}}\biggr\} = {n \choose p};]
Definição 3: Seja [;p \in \mathbb{N};]. A sequência delta de [;p;], denotada por [;\delta_p(n);] é definida por:
[;\delta_p(n) = \begin{cases}1, \quad \text{se} \quad n = p\\0, \quad \text{se} \quad n \neq p\\\end{cases};]
Proposição 3: Se [;\delta_p(n);] é a sequência delta, então [;\ell_{d}^{-1}\delta_p(n) = e^{-sp};].
Proposição 4: Se [;\delta_0(n);] a sequência delta de ordem zero, então
[;\ell_{d}^{-1}\biggl\{\frac{1}{e^s - r}\biggr\} = r^{n- 1} - \frac{\delta_0(n)}{r};]
Definição 4: Dadas as sequências [;(x_n);] e [;(y_n);], a convolução denotada por [;x_n\ast y_n;] é definida por
[;x_n\ast y_n = \sum_{k=0}^{n}x_{n-k}y_{k};]
 É fácil provar que a convolução é comutativa. Uma propriedade importante sobre a convolução é dada na proposição abaixo.

Proposição 5: Se [;\ell_d\{x_n\} = X(s);] e [;\ell_d\{y_n\} = Y(s);], então

[;\ell_d\{x_n\ast y_n\} = X(s)Y(s);]
Vejamos agora algumas aplicações da TDL às equações de recorrência. Um material completo e detalhado está sendo confeccionado. 

Problema 1: Considere a sequência de estruturas triangulares conforme a figura abaixo. Quantos segmentos são usados para construir a enésima estrutura? 
Observação: Este problema foi baseado em uma questão da primeira fase OBMEP 2012.
Resolução: Seja [;x_n;] a quantidade de segmentos de reta necessário para construir o enésima estrutura. Note que [;x_1 = 3;], [;x_2 = a_1 + 3\cdot 2;], [;a_3 = a_2 + 3\cdot 3;]. Por indução finita, pode-se provar que 

[;\begin{cases}x_{n+1} = x_n + 3(n + 1), \quad n \geq 1\\x_1 = 3\\\end{cases};]
Aplicando a TDL em ambos os lados desta equação, temos:

[;e^sX(s) - e^sx_0 = X(s) + \frac{3e^s}{(e^s - 1)^2} + \frac{3e^s}{e^s - 1} \quad \Rightarrow;]
[;X(s) = x_0\cdot \frac{e^s}{e^s - 1} + \frac{3e^s}{(e^s - 1)^3} + \frac{3e^s}{(e^s - 1)^2};]

Aplicando a transformada discreta inversa de Laplace nesta expressão, segue que
[;x_n = x_0\ell_{d}^{-1}\biggl\{\frac{e^s}{e^s - 1}\biggr\} + 3\ell_{d}^{-1}\biggl\{\frac{e^s}{(e^s - 1)^3}\biggr\} + 3\ell_{d}^{-1}\biggl\{\frac{e^s}{(e^s - 1)^2}\biggr\};]
ou seja,
[;x_n = x_0 + 3{n \choose 2} + 3{n \choose 1};]
Sendo [;x_1 = 3;], então 
[;3 = x_1 = x_0 + 3{1 \choose 2} + 3{1 \choose 1} = x_0 + 3 \quad \Rightarrow \quad a_0 = 0;]
Logo, 
[;x_n = \frac{3n(n-1)}{2} + 3n = \frac{3}{2}n(n+1);]

Problema 2: No post, A Torre de Hanói foi deduzido que a quantidade mínima de movimentos para transferir [;n;] discos do pino [;1;] para o pino [;3;] satisfaz a relação de recorrência:
[;\begin{cases}t_{n+1} = 2t_n + 1, \quad n \geq 1\\t_1 = 1\end{cases};]
Use a TDL e mostre que [;t_n = 2^n - 1;].
Resolução: Aplicando a TDL, temos:
[;\ell_d\{t_{n+1}\} = 2\ell_d\{t_n\} + \ell_d\{1\} \quad \Rightarrow;]
[;e^sT(s) - e^st_0 = 2T(s) + \frac{e^s}{e^s - 1};]
de modo que
[;T(s) = t_0\frac{e^s}{e^s - 2} + \frac{e^s}{(e^s - 1)(e^s - 2)} \quad \Rightarrow;] [;t_n = t_0\cdot \ell_{d}^{-1}\biggl\{\frac{e^s}{e^s - 2}\biggr\} + \ell_{d}^{-1}\biggl\{\frac{e^s}{(e^s - 1)(e^s - 2)}\biggr\} = t_0 2^n + f(n);]
onde
[;f(n) = \ell_{d}^{-1}\biggl\{\frac{e^s}{(e^s - 1)(e^s - 2)} \biggr\};]
 Para calcular esta transformada discreta inversa de Laplace, usamos frações parciais, isto é, 
[;\frac{e^s}{(e^s - 1)(e^s - 2)} = \frac{A}{e^s - 1} + \frac{B}{e^s - 2};]
de modo que [;A = -1;] e [;B = 2;]. Substituindo estes valores e usando a Prop. 4, temos:
[;f(n) = \ell_{d}^{-1}\biggl\{\frac{e^s}{(e^s - 1)(e^s - 2)} \biggr\} =;]
[;= -1\biggl(1 - \delta_{0}(n)\biggr) + 2\biggl(2^{n-1} - \frac{\delta_0(n)}{2}\biggr) = -1 + 2^n;]
Assim,
[;t_n = t_02^n + 2^n - 1;]
Sendo  [;t_1 = 1;], então [;1 = t_1 = 2t_0 + 1;], ou seja, [;t_0 = 0;], donde segue o resultado.
Problema 3: Deposita-se todo mês [;P;] reais em uma conta bancária com rendimento de [;j;]% ao mês. Determine o montante [;C_n;] no enésimo mês.

Resolução: No primeiro mês (mês zero) temos [;P;] reais. No segundo mês (mês 1), temos [;C_1 = P + P(1 + j);], onde a primeira parcela é o depósito mensal de [;P;] reais e a segunda parcela é o montante (referente + juros) referente ao primeiro mês. Por indução finita, obtemos o PVI:
[;\begin{cases}C_{n+1} = P + (1 + j)C_n, \quad n \in \mathbb{N}\\C(0) = P\\\end{cases};]
Aplicando a transformada discreta de Laplace, temos

[;e^sc(s) - e^sC(0) = \frac{Pe^s}{e^s - 1} + (1 + j)c(s) \quad \Rightarrow;]
[;(e^s - 1 - j)c(s) = Pe^s + P\frac{e^s}{e^s - 1} = P\cdot \frac{e^{2s}}{e^s - 1} \quad \Rightarrow;]
[;c(s) = P\frac{e^s}{e^s - 1 - j}\cdot \frac{e^s}{e^s - 1};]
de modo que 
[;C_n = P(1 + j)^n\ast 1 = P\sum_{k = 0}^{n}(1 + j)^k = P\cdot \frac{(1 + j)^{n+1} - 1}{1 + j - 1};]
ou seja,
[;C_n = \frac{P}{j}[(1 + j)^{n+1} - 1];]
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5 comentários:

  1. Oi, Prof!

    Bem sacado a prova da [;TDL;] do coeficiente binomial.

    Gostei muito das aplicações também.

    Uma vez coloquei no face sobre o escritor com mais livros publicados ( conforme o Guinnes ) que por sinal, é brasileiro.

    E sem querer me lembrei do Sr. como sendo o mais prolífero blogueiro de matemática que conheço.

    E agora, produzindo matemática original, além da tradicional, sem dúvidas, conforme me falou uma vez, se espelha em Euler.

    Um abraço!

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  2. Olá Aloísio, também não sei se sou o mais prolífero blogueiro, mas fico muito feliz com suas palavras.

    Tenho muito que publicar e acredito que sem dúvidas a internet é maior invenção de todos os tempos, pois através dela podemos expor nossas ideias a várias pessoas além de trocar conhecimentos com pessoas que estão estudando os mesmos assuntos.

    Realmente este post é bem original, mas tenho muito que lhe agradecer pela definição de transformada discreta de Laplace, o qual foi o pontapé inicial.
    Em breve apresentarei um post aplicando a TDL no cálculo de somatórios.

    Obrigado pelos comentários e volte sempre!

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  3. Paulo, a minha demonstração da função gama discreta deixaria meu próximo artigo muito curto.

    Com sua permissão, gostaria de colocar aqui nos comentários usando sua TDL para o binômio [;n \choose p;].

    Mas fiquei com uma dúvida. O que significa [;0 \choose p;]?

    Até mais.

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    1. [;0 \choose p;] é igual a 1 se p = 0 e é igual a zero caso contrário, sendo p um número natural. Em geral, por definição, [;n \choose p;] é zero se p > 0. Quanto a publicação da função gama discreta, fique a vontade para publicar aqui, mas acho que mesmo que seja pequeno o post, você pode enriquecê-lo com questões abertas ou citando também da função gama contínua.

      Irei viajar nesta semana, mas quando retornar verei com calma as suas ideias.

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    2. Tem razão. Irei colocar no meu blog, inclusive uma segunda prova. Sairá no dia 03 Fev ( Domingo ).

      Boa viagem!

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